Efeitos da pandemia e cenário de transplantes no Brasil

  • janeiro/2022
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A infecção por Covid-19 não apenas levou milhões de pessoas a óbito mundo afora, como afetou permanentemente a saúde física e mental de outras tantas. Algumas delas, inclusive, precisam recorrer ao transplante de órgãos – especialmente o pulmão, o mais afetado pela doença.

O Brasil é o segundo país que mais transplanta no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos, de acordo com o International Registry in Organ Donation and Transplantation (Irodat). Estima-se que 96% dos procedimentos do país sejam feitos via Sistema Único de Saúde (SUS).

Em 2019, os estabelecimentos de saúde brasileiros realizaram 27.688 transplantes de órgãos, córneas e medulas ósseas. Essa relação é puxada pelas córneas, com 14.939 procedimentos, seguida pelos rins, com 6.323. As cirurgias aconteceram especialmente em dois estados: São Paulo e Minas Gerais.

Ainda em 2019, ocorreram apenas 106 transplantes de pulmão. Atualmente, 235 pessoas estão na fila de espera. Os efeitos da Covid-19 no órgão entre pacientes acometidos por infecções graves aumentaram os ingressos na Lista Única. Alguns casos requerem, inclusive, o transplante duplo – do pulmão completo – como último recurso de tratamento.

O primeiro procedimento deste tipo no mundo foi realizado em abril de 2021 no Japão. No Brasil, o Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, já realizou a operação. Trata-se de uma cirurgia de alto risco, considerando-se que penas um entre três transplantados duplos sobreviveu.

Transplante durante a pandemia

A pandemia fez com que o número de doadores de órgãos caísse 11%, na comparação entre 2019 e 2020, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Também houve queda de 20% na quantidade de transplantes, de 18,1 procedimentos por milhão da população (pmp) em 2019 para 15,8 em 2020.

Considerando que cada indivíduo que vai a óbito pode doar órgãos para até oito pessoas, a diminuição de doações afetou a realização de transplantes de todos os tipos. O maior impacto aconteceu entre os procedimentos de córnea e pulmão, que apresentaram redução de 67% cada. Também houve queda de 40% nos procedimentos cardíacos, 38% nos renais, 28% nos de pâncreas e 27% nos hepáticos.

Por serem imunossuprimidas, pessoas transplantadas estão mais suscetíveis a quadros graves e falecimento. Entre os receptores de rins, por exemplo, cerca de 10% dos 80 mil indivíduos foram infectados pelo vírus nos dois maiores centros de transplante renal do Brasil. A taxa de mortalidade junto a esse público, que costuma ser de 2% a 2,5%, foi de 20% a 25% entre os diagnosticados com a doença.

Desafios no transplante

Há inúmeros empecilhos atrelados ao transplante de órgãos, tecidos e medula óssea. Um deles é a discrepância entre doadores e receptores inscritos na Lista Única. Em 2020, eram, respectivamente, 3.686 doadores e 50 mil receptores. O número de pessoas na fila de espera já soma 53.218 pessoas em 2021, segundo o Ministério da Saúde.

A recusa das famílias tem sido outro obstáculo na diminuição da espera. A fim de reverter essa situação e conscientizar a população sobre o assunto, foi criado o Dia Nacional de Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro. Outro problema é a falta de notificação compulsória em caso de morte encefálica, como define a Lei 9.434.

O tempo de deterioração dos órgãos também é visto como obstáculo. Há tecidos que aguentam dias sob refrigeração, enquanto outros órgãos precisam ser transplantados dentro de poucas horas fora do corpo. Assim, nem sempre existirá tempo hábil para o transplante entre pessoas com compatibilidade sanguínea se elas não forem de uma mesma região.

A distribuição desigual de centros pelo território brasileiro também prejudica a realização de transplantes. Em 2017, o país contava com 153 unidades do tipo, concentradas no Sul e no Sudeste. Apenas 11,8% estavam localizadas nas regiões Norte e Centro-Oeste, de acordo com estudo publicado na Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde.

Transplante de órgãos entre espécies

Uma nova possibilidade está no horizonte da ciência: o xenotransplante. Trata-se do transplante entre diferentes espécies. A iniciativa obteve sucesso pela primeira vez em um humano em outubro de 2021. Uma paciente com morte cerebral e sinais de disfunção renal teve um rim de um porco geneticamente modificado anexado aos seus vasos sanguíneos e mantido fora do corpo no centro médico NYU Langone Health, nos Estados Unidos. Após três dias, não houve sinais de rejeição.

Mais tarde, no último dia 7 de janeiro, David Bennett recebeu o coração de um porco em uma cirurgia de oito horas no Centro Médico da Universidade de Maryland, também nos EUA. A grave condição de saúde do paciente o tornava inelegível para realizar a operação usual. O xenotransplante também está sendo testado em outros países, como China e Coreia do Sul, e conta com pesquisas promissoras desenvolvidas no Centro de Modelos Médicos Inovadores da Universidade Ludwig-Maximilians, na Alemanha.

Em 2018, o terceiro teste com transplantes de coração fez com que dois de 14 babuínos sobrevivessem por seis meses – quando, então, foram sacrificados devido à dificuldade de continuar a terapia antirrejeição por via intravenosa num animal. Outro problema foi a continuidade do crescimento de corações colhidos de porcos jovens, a fim de garantir que fossem pequenos o suficiente para babuínos. Isso acabou deslocando outros órgãos essenciais e, em alguns casos, causando a morte do animal receptor.

Para impedir que o problema se repita e ocorra a rejeição dos órgãos pelos receptores – que podem ser macacos ou humanos –, os pesquisadores realizam quatro modificações genéticas nos animais. São elas:

  • Desligamento do gene do receptor do hormônio de crescimento (GHR) dos animais – deixando-os com cerca de metade do peso de um porco normal;
  • Destruição do galactosiltransferase (gene que produz um tipo de açúcar);
  • Adição de um gene que expressa o CD46 humano (uma proteína que ajuda o sistema imunológico a atacar invasores estranhos sem reagir exageradamente e causar doenças autoimunes);
  • Introdução de um gene para a proteína trombomodulina – que evita a formação de coágulos sanguíneos que, de outra forma, destruiriam o órgão transplantado.

O Brasil conta com a sua própria iniciativa no Centro do Genoma Humano da Universidade do Estado de São Paulo (USP). Uma das pesquisas tem como objetivo facilitar o transplante de fígado. O experimento consiste na retirada de todas as células do órgão do doador morto – impossibilitando a rejeição no receptor. O que resta é uma estrutura branca e oca composta por proteínas, onde são colocadas e se reproduzem as novas células, produzidas a partir das células-tronco do paciente que deve receber o tecido.

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