Retorno às aulas presenciais: 10 dicas para apoiar crianças, adolescentes, cuidadores e professores

  • outubro/2021
  • 113 visualizações
  • Nenhum comentário

A pandemia da COVID-19 afetou a vida das pessoas em quase todos os países, o que revelou ser uma das principais crises de saúde pública do mundo. Os efeitos psicológicos e sociais diretos e indiretos são expressivos e trazem grandes repercussões para saúde mental das pessoas, tanto a curto quanto a longo prazo (Holmes et al., 2020).

Especificamente, as crianças e adolescentes indicam ser uma faixa populacional impactada significativamente, pois, para conter a propagação do vírus, variadas medidas foram utilizadas, entre elas ações que afetam o desenvolvimento cognitivo, emocional e social dos jovens, como a interrupção de aulas presenciais, a interação com seus pares e com a comunidade, as atividades de lazer, o acesso aos serviços de saúde e outros dispositivos comunitários, entre outros (Samji et al., 2021).

Consequentemente, o aumento da prevalência de problemas de saúde mental tem sido verificado em diversos estudos, como desatenção (Jiao et al., 2020); níveis mais baixos de expressão de afeto (Singh et al, 2020); sintomas de depressão (Ma et al., 2021), de ansiedade (Tang, Xiang, Cheung, & Xiang, 2021), de estresse (Miranda, Athanasio, Oliveira, & Simoes-e-silva, 2020) e de irritabilidade (Imran, Aamer, Sharif, Bodla, & Naveed, 2020).

Leia também: Como cuidar da saúde mental das crianças na pandemia

Flexibilização das medidas de distanciamento social e retomada das atividades

O avanço da aplicação da vacina contra a COVID-19 na população revela ser extremamente importante para controlar a pandemia, que já infectou e matou muitas pessoas ao redor do mundo (Lima, Almeida, & Kfouri, 2021). No caso do Brasil, a vacinação, além de diminuir o forte impacto sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), possibilita a reabertura de estabelecimentos e uma maior flexibilização do distanciamento social (Brasil, 2021).

Por conta disso, escolas estão sendo reabertas em todo o país e recebendo jovens estudantes que passaram mais de um ano sob as mais variadas condições. Por exemplo, fatores sociais impactaram significativamente para que houvessem discrepâncias no acesso dos estudantes às aulas remotas (Macedo, 2021), havendo uma desigualdade expressiva no que se refere aos aspectos educacionais no contexto da pandemia do coronavírus.

Leia também: O que esperar no pós-pandemia

10 ações do psicólogo para apoiar a volta às aulas presencial

Diante de um cenário com possível presença de jovens com problemas de saúde mental e processo de aprendizagem prejudicado, quais estratégias os psicólogos podem adotar a fim de promover apoio ao retorno das aulas presenciais tanto para as crianças e os adolescentes quanto para os cuidadores e professores?

Abaixo, você confere 10 sugestões de ações que foram adaptadas para o contexto atual com base das orientações realizadas por Marin et al. (2020) e Todos Pela Educação (2020):

1. Identificar sinais de problemas de saúde mental

É necessário que os profissionais de psicologia avaliem detalhadamente comportamentos infanto-juvenis relatados pela família e professores, bem como orientem estes a ficarem mais atentos, pois os comportamentos funcionam como um sinal de alerta.

Para crianças:

  • birras repetidas ou se comportar frequentemente de forma desafiadora ou agressiva;
  • parecer triste ou infeliz, ou chorar muito;
  • manifestar medo ou preocupação frequentes;
  • evitar, recusar ou manifestar emoções desagradáveis ao se separar dos cuidadores ou evitar situações sociais;
  • regredir em comportamentos, como chupar o dedo ou fazer xixi na cama;
  • ter problemas para prestar atenção, não conseguir ficar parada ou ficar inquieta;
  • apresentar dor física que não está relacionada a causa médica;
  • piorar significativamente o desempenho escolar;
  • ter dificuldade ou problemas em se relacionar com outras crianças;
  • evitar ir a eventos sociais;
  • perda ou excesso de apetite ou ser exigente com a comida;
  • comportamento agressivo ou consistentemente desobediente;
  • problemas de sono.

Para adolescentes:

  • manifestar frequentemente tristeza, faltar de esperança ou chorar;
  • ter dificuldade para lidar ou cumprir com as atividades cotidianas;
  • mostrar mudanças repentinas no humor e no comportamento;
  • ter problemas para comer ou dormir;
  • desempenho escolar abaixo do comum ou recusar-se em ir à escola;
  • evitar amigos ou contato social;
  • sentir ou queixar-se comumente de dor física;
  • ser agressivo e ter comportamentos transgressores;
  • sentir-se ansioso ou fazer comentários negativo frequentes sobre o peso ou a aparência física.

2. Ampliar a comunicação 

Orientar aos cuidadores e professores para promoverem momentos regulares de conversas com as crianças e os adolescentes. Esses momentos são excelentes oportunidades para a expressão de sentimentos e pensamentos acerca do que estão vivenciando com retorno às aulas. Encorajar a comunicação fará com que os jovens compreendam que sempre podem buscar os adultos para conversar sobre os mais variados assuntos, fortalecendo o vínculo e a capacidade resolver problemas, por exemplo.

3. Incentivar um estilo de vida mais saudável e prazeroso 

Estimular a aquisição de bons hábitos de sono, a realização de atividade física, a adoção de hábitos alimentares saudáveis e a manutenção de um equilíbrio saudável entre estudo e lazer. 

4. Fortalecer os vínculos familiares e a relação família-escola 

Além de proporcionar momentos de troca e compartilhamento entre os jovens e os cuidadores, é importante manter, sempre que possível, os rituais familiares. Ademais, é essencial orientar responsáveis e professores para o estabelecimento de uma comunicação frequente e engajadora entre eles e uma participação ativa na vida escolar das crianças e adolescentes. Isso significa promover estratégias para ampliação do envolvimento dos cuidadores nas atividades escolares e para que profissionais se sintam mais apoiados pelos responsáveis dos jovens.

5. Foco nos aspectos positivos

Promover a valorização nos aspectos positivos que podem ter no retorno às aulas, bem como promover a identificação e a construções de valores, aspirações e significados importantes tanto nos jovens, quanto nos cuidadores e professores.

6. Desenvolver maior empatia

É fundamental que as crianças e adolescentes sintam-se acolhidos e compreendidos diante das grandes mudanças que vêm sofrendo desde o início da pandemia. Promover o desenvolvimento de habilidades nos cuidadores e professores para ampliar a empatia ao contexto dos jovens é importante para facilitar uma comunicação eficiente e indica ser um pré-requisito para condutas posteriores a serem utilizadas.

7. Aumentar o quantitativo de feedbacks positivos

Desenvolver habilidades nos professores e cuidadores dos jovens para que tenham maior foco atencional nos comportamentos funcionais das crianças e adolescentes quando eles ocorrem, bem como reforçá-los, são práticas essenciais para que os jovens se sintam cuidados. Isso também possibilita maior probabilidade de os bons comportamentos ocorrerem novamente.

8. Promover flexibilidade

Orientar cuidadores e professores na adoção de estratégias para promover uma rotina mais organizada e adaptada ao novo contexto e com estratégias de apoio para realização das tarefas escolares dos jovens. 

9. Desenvolver importantes habilidades

Realizar um treinamento com os cuidadores e professores a fim de desenvolver habilidades referentes às práticas educativas e de socialização emocional de crianças e adolescentes. Ensinar os jovens a compreender, expressar e regular as próprias emoções e a lidar com as emoções que os outros expressam – além de possibilitar que eles tenham figuras de referência de bons comportamentos, acolhedoras e assertivas – aumenta a chances de um desenvolvimento mais saudável socioemocionalmente. Ademais, é possível que as intervenções dos psicólogos estejam direcionadas para as crianças e adolescentes, envolvendo o aprendizado de estratégias cruciais, como regulação emocional, resolução de problema, habilidades sociais, autocompaixão, entre outros.

10. Lidar com o stress

Promover o aprendizado de estratégias para lidar com o estresse é fundamental para que cuidadores e professores consigam ser atores eficazes no desenvolvimento de crianças e adolescentes. As ações devem ter como foco adotar uma vida mais saudável, iniciar e manter bons relacionamentos, reavaliar pensamentos disfuncionais e regular emoções desagradáveis associadas às situações estressantes, reduzir fatores que causam estresse, entre outros.

Gostou do artigo e quer se aprofundar no assunto? Conheça os Programas de Atualização em Psicologia do Secad e qualifique-se profissionalmente!

Autor:

Nilton Correia

Terapeuta Cognitivo-comportamental. Psicólogo CRP 03/9100. Doutorando e Mestre em Psicologia pela UFBA. Especialista em Saúde Mental pela UNEB.

Referências:

Brasil. (2021). Orientações para a retomada segura das atividades presenciais nas escolas de educação básica no contexto da pandemia da covid-19 (p. 24). Brasília: Ministério da Saúde.

Holmes, E. A., O’Connor, R. C., Perry, V. H., Tracey, I., Wessely, S., Arseneault, L., … Bullmore, E. (2020). Multidisciplinary research priorities for the COVID-19 pandemic: a call for action for mental health science Emily. The Lancet Psychiatry, 7, 547–560. doi: 10.1016/ S2215-0366(20)30168-1

Imran, N., Aamer, I., Sharif, M. I., Bodla, Z. H., & Naveed, S. (2020). Psychological burden of quarantine in children and adolescents: A rapid systematic review and proposed solutions. Pakistan Journal of Medical Sciences, 36(5), 1106–1116. doi: 10.12669/pjms.36.5.3088

Jiao, W. Y., Wang, L. N., Liu, J., Fang, S. F., Jiao, F. Y., Pettoello-Mantovani, M., & Somekh, E. (2020). Behavioral and Emotional Disorders in Children during the COVID-19 Epidemic. Journal of Pediatrics, 221, 264-266.e1. doi: 10.1016/j.jpeds.2020.03.013

Lima, E. J. da F., Almeida, A. M., & Kfouri, R. de Á. (2021). Vacinas para COVID-19 – o estado da arte. Revista Brasileira de Saude Materno Infantil, 21(Supl. 1), S21–S27. doi: 10.1590/1806-9304202100s100002

Ma, Z., Idris, S., Zhang, Y., Zewen, L., Wali, A., Ji, Y., … Baloch, Z. (2021). The impact of COVID-19 pandemic outbreak on education and mental health of Chinese children aged 7–15 years: an online survey. BMC Pediatrics, 21, 1–8. doi: 10.1186/s12887-021-02550-1

Macedo, R. M. (2021). Direito ou privilégio? Desigualdades digitais, pandemia e os desafios de uma escola pública. Estudos Históricos (Rio de Janeiro), 34(73), 262–280. doi: 10.1590/s2178-149420210203

Marin, A. H., Andrada, B. C., Schmidt, B., Melo, B. D., Lima, C. C., Fernandes, C. M., … Assis, S. G. (2020). Crianças na pandemia Covid-19. In: D. da S. Noal, M. F. D. Passos & C. M. Freitas (Orgs.), Recomendações e orientações em saúde mental e atenção psicossocial na COVID-19 (pp. 172-188). Rio de Janeiro: Fiocruz

Miranda, D. M. de, Athanasio, B. da S., Oliveira, A. C. S., & Simoes-e-silva, A. C. (2020). How is COVID-19 Pandemic Impacting Health of Children and Adolescents? International Journal of Disaster Risk Reduction, 51(1–8). doi:10.1016/j.ijdrr.2020.101845

Samji, H., Wu, J., Ladak, A., Vossen, C., Stewart, E., Dove, N., … Snell, G. (2021). Review: Mental health impacts of the COVID‐19 pandemic on children and youth – a systematic review. Child and Adolescent Mental Health. doi: 10.1111/camh.12501

Tang, S., Xiang, M., Cheung, T., & Xiang, Y. T. (2021). Mental health and its correlates among children and adolescents during COVID-19 school closure: The importance of parent-child discussion. Journal of Affective Disorders, 279, 353–360. doi: 10.1016/j.jad.2020.10.016

Todos pela educação (2020). Nota técnica: O retorno às aulas presenciais no contexto da pandemia da COVID-19. Recuperado de https://static.poder360.com.br/2020/05/todos-pela-educacao.pdf

Editoria de Psicologia
Matéria por

Editoria de Psicologia

Editora-chefe: Carmem Beatriz Neufeld. Psicóloga, Pós-Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Professora Associada do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP. Presidente da Associação Latino Americana de Psicoterapias Cognitivas - ALAPCO (2019-2022). Presidente da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023).

Deixe uma resposta

Tele-Vendas

(51) 3025.2597

Tele-Vendas Liga

Para você

Informações

(51) 3025.2550