Cuidados paliativos no contexto da Covid-19: como proceder  

  • maio/2020
  • 7790 visualizações
  • Nenhum comentário
cuidados paliativos na Covid-19

A prática dos cuidados paliativos é definida como a assistência ao paciente incurável, que visa a oferecer dignidade e redução de sofrimento. O contato próximo e a inclusão da família no ambiente de UTI são medidas que garantem o bem-estar dos indivíduos que sofrem de doenças graves.

Diante da pandemia do novo coronavírus, a especialidade passa por uma situação atípica: isolamento do paciente, contato limitado e evolução rápida, que mal permite ações de conforto. Inclusive, essa é uma das grandes questões da área: o acionamento precoce dos cuidados paliativos.

“Muitas vezes, nos chamam quando o paciente já está em processo ativo de morte. Acredito que o contexto da Covid-19 venha trazer novas discussões nesse sentido”, comenta o médico Lucas de Azambuja Ramos, coordenador do Núcleo de Cuidados Paliativos do Hospital São Lucas da PUCRS, em Porto Alegre (RS).

Triagem para os cuidados

O desafio dos cuidados paliativos para pacientes com Covid-19 é manter a resposta rápida, de forma flexível e humanizada – e, ainda, seguindo os devidos protocolos. Logo, o papel da triagem é fundamental para determinar sua adesão. Até porque uma das principais dificuldades em meio à pandemia é a escassez de recursos. A falta de leitos e de respiradores coloca à prova a contenção da doença.

Se desde a triagem existe um olhar familiarizado com os cuidados paliativos, é possível otimizar a distribuição de recursos entre os pacientes com Covid-19. Lucas Ramos, que também é geriatra, explica que alguns tratamentos não são adequados a pacientes idosos, principalmente com doenças de base, como câncer.

Contudo, mesmo antes da pandemia os escores para intubação indicavam que pacientes oncológicos de estágio quatro, por exemplo, não seriam elegíveis ao procedimento. “A doença já é grave, e uma intubação traria ainda mais comorbidades. Nesse momento é que os cuidados paliativos promovem o bem-estar do paciente, limitando o sofrimento”, explica.

Um estudo de revisão feito por pesquisadores do King’s College, de Londres, sintetizou as evidências sobre o papel dos cuidados paliativos durante a pandemia de Covid-19. Os principais achados apontam como essencial alguns pontos. Confira:

  • Exigir flexibilidade e mudanças rápidas em sistemas e políticas públicas;
  • Limitar o horário e o número de visitantes;
  • Mudar os critérios de admissão;
  • Implementar sistemas de suporte telefônico diário para famílias;
  • Interromper os serviços voluntários;
  • Cuidados paliativos devem fazer parte do planejamento nacional e local da pandemia.

Torne-se um geriatra mais preparado para o cuidado ao paciente incurável com a Atualização Profissional desenvolvida pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

Cenário assistencial no Brasil

No Brasil, por exemplo, a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) segue indicações internacionais: “O cuidado paliativo deve ser oferecido em conjunto com o tratamento padrão de qualquer doença que ameace a continuidade da vida, não devendo jamais ser associado com a omissão ou exclusão [abandono terapêutico], mesmo durante uma pandemia”.

Nesse sentido, alguns dos principais atributos dos cuidados paliativos são:

  • Verificar se a intubação não pode trazer mais complicações que benefícios para esse paciente;
  • O médico deve sempre compartilhar as decisões com a família, e não transferir somente a ela a responsabilidade sobre o paciente;
  • Promover alívio da dor e demais sintomas;
  • Afirmar a vida e reconhecer a morte como processo natural;
  • Não antecipar nem adiar a morte;
  • Integrar aspectos psicológicos e espirituais;
  • Apoiar uma vida mais ativa possível até sua morte;
  • Prestar suporte aos familiares;
  • Atuar de forma multiprofissional.

Desafios dos cuidados paliativos

Até pouco tempo atrás, a comunicação de más notícias para a família por telefone era considerada uma ação antiética. Agora, no entanto, a prática tem sido determinante para evitar aglomerações nos hospitais e manter a orientação de isolamento social. Assim, cada serviço de saúde pode encontrar uma saída própria, como o uso de protocolos para publicar boletins médicos diários.

Para o coordenador do Núcleo de Cuidados Paliativos do Hospital São Lucas da PUCRS, buscar alternativas para a promoção do bem-estar no contexto da Covid-19 tem sido um grande desafio. “Mesmo em unidades onde não há casos confirmados as visitas estão limitadas. Todas as ações que promovem qualidade de vida estão suspensas”, explica. Ramos se refere a ações como pet terapia, atividades religiosas e até mesmo a realização de últimos desejos, todas suspensas por tempo indeterminado.

Por outro lado, chama atenção o uso de novas tecnologias, como as chamadas de vídeo em família. Para tanto, é importante avaliar caso a caso. “Um paciente habilidoso com o celular pode fazer um contato virtual. O problema é que algumas famílias nem sequer têm internet”, constata.

É necessário, também, considerar as condições do paciente. Como a intubação inviabiliza o contato, não é recomendável expor paciente e familiares a situações desconfortáveis. Sendo assim, em casos de contato limitado, a sugestão é de que os médicos promovam atividades como leituras, inclusão de música e ações que estejam ao alcance do isolamento.

Além disso, vale considerar a escuta ativa, uma das principais atribuições dos paliativistas. Captar os valores dos pacientes (sejam eles religiosos, familiares ou pessoais), assim como manter a autonomia da pessoa, são os pilares da dignidade no âmbito dos cuidados paliativos.

Redação Secad
Matéria por

Redação Secad

O melhor conteúdo sobre a sua especialidade.

Deixe uma resposta

Tele-Vendas

(51) 3025.2597

Tele-Vendas Liga

Para você

Informações

(51) 3025.2550