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Entenda os riscos da resposta imunológica excessiva em casos de Covid-19        

Na maioria das infecções, o organismo utiliza a resposta imunológica inata para eliminar o patógeno invasor. Depois que os vírus, bactérias ou protozoários são combatidos, o sistema imunológico se reequilibra. Não parece ser o caso do novo coronavírus.

Estudos indicam que a mortalidade do Sars-Cov-2 pode estar mais associada à atuação exacerbada – e, portanto, prejudicial – do sistema imunológico do que à própria ação viral.

Garantir que as atividades protetoras e agressivas do sistema imunológico estejam equilibradas durante o combate ao coronavírus ainda é um mistério para a medicina. A intensidade das reações varia conforme a pessoa devido aos fatores genéticos, mas habilidades de escape do vírus podem ser responsáveis pelo caos provocado no organismo.

Entenda sobre a resposta imunológica ao coronavírus e o que é possível fazer para amenizar a reação.

A tempestade de citocina

Evidências publicadas na revista científica The Lancet sugerem que os casos graves de Covid-19 podem estar relacionados a uma hipercitonemia – ou tempestade de citocinas. O aumento acentuado dessas proteínas gera uma resposta hiperinflamatória que leva à disfunção orgânica e, eventualmente, à falência múltipla dos órgãos.

Como explica a imunologista Cristina Ribeiro Cardoso, da diretoria da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), a célula pulmonar passa a liberar moléculas de citocina após ser invadida pelo coronavírus. Essas moléculas, então, realizam a comunicação intracelular, alertando o sistema imunológico sobre o ataque. Na sequência, elas ativam os macrófagos, células de combate que liberam ainda mais citocinas para recrutar outras fontes de defesa, como as células dendríticas.

“A quantidade desmedida dessas proteínas faz com que células imunológicas migrem sem parar dos vasos sanguíneos até a área inflamada – no caso do coronavírus, os pulmões. É como se fosse um alarme muito maior do que o necessário e que pede cada vez mais reforços”, explica Cardoso. Sem um mecanismo para frear o processo, a ação do próprio sistema imunológico na região se torna tão intensa que começa a danificar o tecido pulmonar. Nesse estado, o paciente pode precisar do auxílio de um respirador artificial.

Como e por que a hipercitonemia acontece

Os estudos ainda são inconclusivos, mas a condição por trás da hipercitonemia pode ser a linfo-histiocitose hemofagocítica (LHH), síndrome caracterizada pela hiperativação imunológica e comumente desencadeada por infecções virais.

De acordo com o estudo da The Lancet, um perfil de citocinas semelhante à LHH parece estar associado ao fenótipo mais grave da doença causada pelo coronavírus. Nesses casos, é possível verificar o aumento da interleucina (IL) 2, 6 e 7, do fator estimulador de colônias de granulócitos, da proteína 10 indizível pelo interferfon-γ, da proteína 1 monócito-quimiotática, da proteína inflamatória de macrófago 1- α e do fator de necrose tumoral- α.

O que é possível fazer

Segundo a pesquisa, no cenário ideal, todas as pessoas com quadros graves de Covid-19 deveriam ser submetidas à triagem de hiperinflamação. O objetivo é medir o aumento da ferritina, a diminuição da contagem de plaquetas e a taxa de sedimentação de eritrócitos. O teste de HScore é uma alternativa para identificar uma possível síndrome LHH e pode ser feito através de calculadoras online. Ele ainda indica quais pacientes poderiam alcançar resultados positivos com imunossupressores.

Cardoso vê o uso das terapias imunossupressoras com cautela. “Elas até poderiam funcionar em determinados casos, mas tem efeitos colaterais que podem agravar a situação. O grande desafio é saber quando introduzir essas substâncias e qual é a dosagem correta”. Para ela, trata-se de uma resposta que ainda não se tem. “E o risco de enfraquecer demais o sistema imunológico é muito alto”, acrescenta a imunologista.

Mas há estudos promissores. O Tocilizumabe, um imunomodulador que bloqueia o receptor de interleucina-6, por exemplo, tem apresentado bons resultados. Em abril, o Assistance Publique Hôpitaux de Paris, na França, observou uma melhora significativa no prognóstico de pacientes de Covid-19 com quadros de pneumonia após uso do medicamento.

Apesar da boa notícia, a análise foi feita com um grupo pequeno de pessoas, sendo considerada inconclusiva pela comunidade médica. No Brasil, o Tocilizumabe começou a ser testado em maio por diferentes centros de pesquisa.

Confira a seguir três perguntas para a imunologista Cristina Ribeiro Cardoso, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI):

SECAD: O sistema imunológico também tem a sua reação maximizada em outras patologias, como as doenças autoimunes. O que é diferente na resposta causada pelo coronavírus e por que é mais difícil combatê-lo?

Cristina Cardoso: Em doenças como lúpus e esclerose múltipla, a resposta imunológica também é aumentada, mas a diferença está na velocidade. São doenças crônicas que progridem devagar. E, por isso, há uma janela temporal que permite controlar essa ação imunológica intensa. No coronavírus, a resposta parece ser muito mais rápida e as estratégias de escape do vírus parecem ser muito eficientes, mas ainda não se sabe se essa é uma característica do vírus ou de um subgrupo de pessoas. Ao mesmo tempo em que o sistema não consegue eliminar totalmente o patógeno, ele passa a atacar as células saudáveis do próprio corpo.

SECAD: Ainda estamos em fase de testes com todos os medicamentos para a Covid-19. Quando se identifica um quadro de resposta imunológica agressiva, como se deve proceder? Qual a melhor alternativa para evitar esse cenário?

Cristina Cardoso: A ciência ainda não comprovou totalmente a eficácia de nenhum fármaco, o que nos impede de adotar qualquer tratamento com segurança. Por enquanto, seguimos cuidando apenas dos sintomas. Para casos em que o sistema imunológico apresentar essa resposta exagerada, alguns pesquisadores têm indicado a transfusão de plasma convalescente, uma estratégia bastante antiga. Mas até mesmo transferir anticorpos de pacientes já curados pode ser perigoso. Será que eles são mesmo protetores? Eles também podem ter um papel de indução de informação celular. Nenhum tratamento será mais eficiente do que uma vacina, mas seguimos longe disso.

SECAD: Além dos fatores genéticos, o que pode influenciar o desequilíbrio do sistema imunológico?

Cristina Cardoso: Nos pacientes de coronavírus, a atuação do sistema imunológico pode ser influenciada por doenças pré-existentes como problemas renais ou hipertensão. Essas condições modificam o trabalho imunológico. Indiretamente, podemos dizer que até o estilo de vida que a pessoa leva tem impactos.