Novembro azul: um diálogo sobre o autocuidado masculino

  • novembro/2021
  • 78 visualizações
  • Nenhum comentário

Como citar este artigo: Rodrigues, W. S. & Neufeld, C. B. (2021, 25 nov.). Um diálogo sobre o autocuidado masculino. Blog do Secad. https://secad.artmed.com.br/blog/psicologia/autocuidado-masculino/

 

No cotidiano comum, não raro é se deparar com as frases “vira homem, moleque”, “menino não chora”, “isso é coisa de menina” ou “você tem que ser forte, já é o homem da casa”. Decerto, elas estão carregadas com preceitos e ideias sobre um ideal masculino, ou seja, qual é o papel que um homem deve desempenhar na sociedade.

Durante as diversas fases da vida, os homens entram em contato com esse ideal masculino por meio de filmes, músicas, das relações sociais, dentre outros contextos, que ditam como os homens devem sentir, pensar, ser e se comportar, resultando no desenvolvimento de valores, motivações e outras características da personalidade. Essa aprendizagem sobre o homem ideal traz consequências importantes para o público masculino, especialmente quando se fala em processos de saúde.

Os resultados das pesquisas epidemiológicas divulgadas pelo IBGE (2019) indicam que, em média, os homens brasileiros vivem 7 anos a menos do que as mulheres. Ainda, a literatura indica que o público masculino não costuma utilizar medidas de proteção de saúde e prevenção de doenças, tende a se envolver em comportamentos mais agressivos, bem como evita a busca por ajuda médica mesmo quando há a presença de uma patologia (Ministério da Saúde, 2008). Para uma parte significativa desse grupo, adoecer e precisar de ajuda com a saúde é percebido como sinal de impotência e fracasso. Também, é comum um desconforto, medo e constrangimento quando necessitam realizar exames e consultar um(a) profissional da saúde (Garcia et al., 2019).

No contexto brasileiro, reconhecendo a necessidade de desenvolvimento da compreensão, prevenção e intervenção da saúde para o público masculino, em 2008, por meio da Secretaria de Atenção à Saúde, do Ministério da Saúde, foi criada a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), que tem como um dos seus principais objetivos a promoção de atividades de saúde que auxiliem no entendimento das especificidades de cada homem, considerando seus contextos sociais, econômicos, políticos e culturais, além de ações voltadas para o aumento da expectativa de vida (Ministério da Saúde, 2008). Contudo, conforme ressaltado por Couto & Gomes (2012), tanto no cenário nacional quanto internacional, há uma escassez de ações públicas voltadas para este público, bem como uma ausência de estudos sobre a efetividade e os impactos dos programas existentes.

Para contornar o presente cenário, as práticas de autocuidado podem ser uma ferramenta poderosa. O autocuidado possibilita aos indivíduos desempenharem um papel autônomo direcionado à preservação da vida, da saúde e do bem-estar. Essa prática envolve o reconhecimento da necessidade de práticas mais adaptativas, a seleção de atividades mais adequadas, o desempenho das atividades selecionadas e a avaliação da eficácia das atividades (Garcia et al., 2019; Sidani, 2011).

9 máximas para a prática de autocuidado masculino

Tendo em vista a necessidade de promoção do autocuidado masculino, quais são as ações e direções a serem tomadas? Para responder a essa pergunta, abaixo estão listadas 9 máximas que podem auxiliar no planejamento e execução da mudança almejada. Essas orientações não pretendem se constituir em um imperativo categórico: os(as) profissionais podem ampliar e adaptar as máximas aqui apresentadas, conforme as características pessoais e situacionais de cada caso.

  1. Reconhecer a importância e necessidade do autocuidado

Alguns sinais da necessidade de autocuidado podem aparecer em sintomas físicos (ex.: cansaço persistente, insônia, falta de ar, tremores, náuseas, etc.), cognitivos (ex.: medo, pensamentos ruminativos/repetitivos, baixa concentração, etc.), comportamentais (ex.: esquiva de situações, problemas para concluir tarefas, agitação, etc.) e/ou emocionais (ex.: irritabilidade, tensão, apreensão, etc.). Os(as) profissionais da saúde podem, com a psicoeducação, promover validação, normalização e apoio sobre a necessidade de autocuidado, trazendo de forma clara que essa prática envolve o cultivo da bondade e autocompaixão e ações que colaboram para o bem-estar (Carvalho et al., 2020; Roemer & Orsillo, 2010; Sidani, 2011).

Leia também: Autocompaixão: a arte de sermos menos críticos com nós mesmos

  1. Compreender os mitos e tabus presentes no universo masculino

Por vergonha, receio e/ou desconhecimento, os homens podem não se engajar em comportamentos de autocuidado, tal como frequentar os consultórios de urologia. Por trás disso, estão uma série de mitos sobre práticas de saúde, como “precisar de ajuda é sinônimo de fraqueza”, “um homem deve aguentar o tranco” e “é preciso ser dominante e agressivo sempre que possível”. Alguns materiais que podem auxiliar na identificação e educação sobre mitos e tabus são os documentários “O silêncio dos homens” (Papo de Homem, 2019), “Precisamos falar com os homens?” (ONU Mulheres Brasil, 2016), “The Mask You Live In” (Newsom, 2015) e os materiais produzidos pelo movimento Papo de Homem.

  1. Aumentar a comunicação e o contato com profissionais da saúde

Segundo Garcia et al. (2019), os homens tendem a procurar por assistência de um(a) profissional da saúde apenas após o agravamento da situação/doença, especialmente quando os impossibilitam de trabalhar e/ou exercer outras funções. Ainda segundo os autores, o horário de trabalho é um dos dificultadores para a busca por prevenção/atendimento. Assim, o(a) profissional da saúde pode buscar estratégias que facilitem e encorajem a comunicação rotineira com profissionais da saúde (por exemplo, elaborando uma lista de profissionais que atendam após o horário de trabalho do paciente, facilitar o contato nas mídias sociais, etc.).

  1. Incentivar um estilo de vida mais saudável e prazeroso

As atividades prazerosas e os comportamentos saudáveis desempenham um papel relevante no bem-estar e em desfechos de saúde, pois oferecem oportunidades para atender aos valores e necessidades da vida, e ainda atuam de forma preventiva para diversos quadros clínicos. Aqui, é relevante observar sobre o processo de aprendizagem do paciente ao longo da vida sobre a prática de autocuidado e conhecer quais são as estratégias já utilizadas, buscando compreender a função e os desdobramentos dos comportamentos adotados. Alguns exemplos de atividades que podem ser implementadas são: alongamento, técnicas de relaxamento e meditação, atividades físicas (por exemplo, estacionar o carro um pouco mais distante do local de trabalho para aumentar a caminhada diária), rotina/higiene do sono, hobbies, atividades de caridade/solidariedade, escrita reflexiva, dentre outros (Lucena-Santos et al., 2015)

  1. Experienciar as emoções

As pessoas tendem a buscar emoções que as afetam de forma prazerosa e afastar-se daquelas que trazem sofrimento. A esquiva emocional e experiencial envolve uma tentativa de controle e supressão das experiências consideradas aversivas e, como consequência negativa, pode dificultar o desenvolvimento de estratégias adequadas para lidar com a situação. Assim, os homens podem se beneficiar da psicoeducação sobre as emoções e das estratégias que visam à expressão emocional adequada de acordo com o contexto (Mendes & Pereira, 2018).

  1. Planejar e se comprometer com o autocuidado

As atividades de autocuidado podem ser planejadas almejando uma finalidade (ex.: promoção e manutenção da saúde, prevenção de doenças, gestão de doenças ou sintomas), focando em uma população-alvo (ex.: crianças ou adultos), e observando o contexto (ex.: cuidados primários, agudos, e/ou de longo prazo). O paciente precisa se comprometer com a prática de autocuidado, ela não pode ser negociável (Sidani, 2011).

Para saber mais sobre aspectos centrais no planejamento e organização das práticas de autocuidado, confira este vídeo elaborado pela professora Dra. Carmem Beatriz Neufeld (2020), organizadora do Programa de Atualização em Terapia Cognitivo-comportamental do Secad (PROCOGNITIVA).

  1. Transformar em rotina

Em meio à rotina de trabalho, estudo e outras atividades, as práticas prazerosas e mais saudáveis podem ficar esquecidas. Um erro comum é acreditar que a prática de autocuidado só pode ser feita em momentos específicos (por exemplo, separando um momento do dia após a rotina de trabalho). Deve-se incentivar o paciente a incorporar às atividades diárias os exercícios de autocuidado, transformando-os em uma rotina.

  1. Cuidar dos vínculos sociais

É essencial que os homens construam vínculos de afeto e cuidado. Para isso, pode ser necessário aumentar a quantidade de momentos de troca e compartilhamento com as outras pessoas e buscar o desenvolvimento de habilidades sociais.

  1. Observar as especificidades individuais

Quando falamos sobre o público masculino, nos deparamos com um grupo bastante heterogêneo. Por exemplo, as vivências e experiências de um homem negro no contexto brasileiro tendem a ser divergentes de outros subgrupos. Por isso, é necessária a formulação e implementação de propostas que considerem a pluralidade das formas de existir e de se relacionar do público masculino (Couto & Gomes, 2012; Garcia et al. 2019; Ministério da Saúde, 2008).

Leia também: Saúde mental da população negra: como otimizar a abordagem diante de casos de racismo

Gostou do artigo e quer se aprofundar no assunto? Conheça os Programas de Atualização em Psicologia do Secad e qualifique-se profissionalmente!

Autor:
Willian Rodrigues

Psicólogo pela UFMG. Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia: Cognição e Comportamento – PPG-CogCom-UFMG. Pesquisador membro do Laboratório de Avaliação e Intervenção na Saúde – LAVIS/UFMG. Membro da Comissão Jovem da Associação de Terapias Cognitivas de Minas Gerais – ATC-Minas. Membro da Diretoria Consultiva da Liga de Terapias Cognitivo-Comportamentais – LiTeCC-UFMG.

 

Referências:

Carvalho, M. R., Malagris, L. E. N., & Rangé, B. (2020). A psicoeducação na Terapia Cognitivo-Comportamental. In M. R. Carvalho, L. E. N. Malagris & B. P. Rangé (Orgs.), Psicoeducação em Terapia Cognitivo-Comportamental. (2ªEd, pp.15-28). Sinopsys Editora.

Couto, M. T., & Gomes, R. (2012). Homens, saúde e políticas públicas: a equidade de gênero em questão. Ciência & Saúde Coletiva, 17(10), 2569–2578. DOI: 10.1590/s1413-81232012001000002

Garcia, L. H. C., Cardoso, N. O., & Bernardi, C. M. C. N.. (2019). Autocuidado e adoecimento dos homens: uma revisão integrativa nacional. Revista Psicologia e Saúde, 11(3), 19-33. doi: 10.20435/pssa.v11i3.933

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019). Tábua completa de mortalidade para o Brasil: breve análise da evolução da mortalidade no Brasil. Ministério da Economia. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/3097/tcmb_2019.pdf

Lucena-Santos, P., Pinto-Gouveia, J., & Oliveira, M. S. (2015). Terapias Comportamentais de Terceira Geração: guia para profissionais. Sinopsys Editora.

Mendes, M. A., & Pereira, A. L. S. (2018). Estratégias de regulação emocional em psicoterapia. In Federação Brasileira de Terapias Cognitivas, C. B. Neufeld, E. M. O. Falcone & B. P. Rangé (Orgs.). PROCOGNITIVA Programa de Atualização em Terapia Cognitivo-Comportamental: Ciclo 5. (pp. 9–53). Porto Alegre: Artmed Panamericana. (Sistema de Educação Continuada a Distância, v. 1).

Ministério da Saúde (2008). Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem: Princípios e Diretrizes. Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas.  Brasília, DF: Ministério da Saúde. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_atencao_saude_homem.pdf

Neufeld, C. B. Chá de Quinta com Dra. Carmem Beatriz Neufeld – Episódio 1. [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=0bpO0LELEsU&ab_channel=DraCarmemBeatrizNeufeld

Newsom, J. S. (Diretora). (2015, 25 de janeiro). The Mask You Live In. [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=k4yFShxUb2E&ab_channel=DocumentaryWorld

ONU Mulheres Brasil (2016, 1 de novembro). Precisamos falar com os homens? [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=jyKxmACaS5Q&ab_channel=ONUMulheresBrasil

Papo de Homem (2019, 29 de agosto). O silêncio dos homens. [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=NRom49UVXCE&ab_channel=PapodeHomem

Roemer, L., & Orsillo, S. M. (2010). A prática da terapia cognitivo-comportamental baseada em mindfulness e aceitação. Artmed.

Sidani, S. (2011). Self-Care. In D. M. Doran (Ed.), Nursing Outcomes: The State of the Science. (2ª Ed, pp. 79-130). Jones & Bartlett Learning.

 

Editoria de Psicologia
Matéria por

Editoria de Psicologia

Editora-chefe: Carmem Beatriz Neufeld. Psicóloga. Livre docente em TCC pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP. Pós-Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora e Mestra em Psicologia pela PUCRS. Fundadora e Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Professora Associada do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – USP. Presidente da Federação Latino Americana de Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - ALAPCCO (2019-2022). Presidente-fundadora da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Bolsista Produtividade do CNPq.

Deixe uma resposta

Tele-Vendas

(51) 3025.2597

Tele-Vendas Liga

Para você

Informações

(51) 3025.2550