Lições do coronavírus: como a saúde no Brasil vai mudar

  • maio/2020
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Há pouco mais de um ano, cientistas do Instituto de Virologia de Wuhan, na China, publicaram um artigo que, se tivesse ganhado a devida atenção, poderia ter mudado os rumos da pandemia de coronavírus. Logo em seu primeiro parágrafo o estudo trazia a seguinte frase: “É altamente provável que surtos futuros de coronavírus se originem de morcegos, e há uma probabilidade maior de que isso ocorra na China”.

Agora o mundo enfrenta uma pandemia histórica, que vem mudando radicalmente as estruturas dos sistemas de saúde de dezenas de países. Entre eles, o Brasil. Até o começo de maio, o país registrava mais de 100 mil casos confirmados e 7 mil mortes. É nesse contexto que as unidades de atendimento, tanto públicas quanto privadas, precisam atender pacientes de Covid-19 sem descuidar de quem sofre com outras patologias.

Acompanhe, a seguir, três lições do coronavírus para o sistema de saúde no Brasil e confira uma breve entrevista com a médica Marília Louvison, diretora do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Estrutura e investimentos

Nada menos que 75% dos brasileiros contam apenas com o Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, o SUS dispõe de apenas 23 mil leitos de UTI, o que equivale a 1,4 leito de terapia intensiva para cada grupo de 10 mil pessoas. Já o sistema privado, que atende os 25% restantes da população, conta com praticamente a mesma quantidade de leitos de UTI (são 22,7 mil).

Números assim expõem uma fraqueza da saúde pública nacional: o desequilíbrio que leva, inevitavelmente, a uma superdemanda do SUS. “Há um subfinanciamento e uma baixa capacidade de regulação entre as segmentações pública e privada”, afirma a médica Marília Louvison, diretora do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Segundo ela, a crise causada pelo coronavírus evidenciou a necessidade de se contar com um sistema de saúde coletiva forte e confiável. “Daqui para frente, vamos precisar investir mais nas atividades cotidianas do SUS, fortalecendo a atenção primária e o Sistema Único de Assistência Social [SUAS] que tem capilaridade em diversos territórios e que durante episódios como esse facilitam o isolamento”, diz ela. Louvison destaca, ainda, que será importante criar estratégias para administrar e diagnosticar o fluxo intenso de sintomas respiratórios, além de expandir o número de leitos disponíveis para a população.

Confiança na ciência

A pesquisa brasileira na área médica tem ganhado destaque em meio à pandemia, e tudo leva a crer que continuará em ascensão. No fim de fevereiro, quando a gravidade do cenário ainda era indefinida, cientistas brasileiros conseguiram sequenciar o genoma do novo coronavírus em apenas dois dias, enquanto países que recebem mais recursos para esse fim levaram, em média, 15 dias.

Esse sequenciamento foi essencial para identificar a origem do vírus que chegou ao Brasil, bem como suas possíveis mutações.

A ciência também tem oferecido alternativas ao tratamento da doença. Uma equipe multidisciplinar da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), por exemplo, desenvolveu um respirador pulmonar emergencial de baixo custo, capaz de ser fabricado em até duas horas. O aparelho foi aprovado em todos os testes, e sua licença está disponível para qualquer empresa que desejar fabricá-lo. De acordo com Marília Louvison, a ciência e a tecnologia serão dois trunfos para levar a qualificação da saúde coletiva a cada vez mais brasileiros.

Disponibilidade de informações

A pandemia também evidenciou a importância da divulgação de informações de qualidade sobre saúde. Ações simples, como lavar as mãos frequentemente e evitar levá-las ao rosto, ou cobrir a boca e o nariz com o braço na hora de espirrar, fazem a diferença. Ainda mais quando praticamente toda a sociedade está ciente delas e de sua confirmação científica. Durante a crise, diversos veículos de imprensa, portais especializados e periódicos científicos liberaram o acesso a conteúdos relacionados ao vírus.

A tendência é que a comunicação entre profissionais da saúde, pacientes, população e órgãos governamentais continue crescendo. Diante da necessidade de estender o tempo de isolamento social, muitas consultas devem seguir se beneficiando da telemedicina, e a atualização das pessoas quanto ao contexto da doença deve se manter constante. “O SUS é um grande patrimônio nacional, que considera a saúde um direito, e a informação está dentro desse cenário”, afirma a porta-voz da Abrasco.

Confira, a seguir, três perguntas para a médica Marília Louvison, diretora do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco):

SECAD: Em sua opinião, o que é fundamental para que a saúde pública enfrente com maior assertividade a pandemia de coronavírus?        

Marília Louvison: Para ser funcional, um sistema universal de saúde deve ter como foco a atenção primária, capaz de proteger a população. É preciso considerar as desigualdades, cuidando do envelhecimento das pessoas e do aumento das doenças crônicas, da saúde mental e da expansão da violência. Para que isso seja possível, é necessário ampliar o direcionamento de recursos e a força de trabalho, com uma gestão coordenada dos governos federal, estaduais e municipais.

SECAD: Nesse momento, quais são as maiores fragilidades da saúde coletiva no Brasil?
Marília Louvison: As maiores fragilidades dizem respeito às dificuldades no acesso e à segmentação do sistema público-privado. Nos últimos anos, o mercado de planos de saúde privados cresceu muito, ancorado justamente nessa fragilidade. Convivemos, agora, com um congelamento de gastos sociais e com uma mudança no financiamento da atenção primária. Isso nos coloca em uma situação ainda mais frágil.

SECAD: Qual deverá ser a principal lição da crise causada pela pandemia de coronavírus?
Marília Louvison:
Será o fato de que o SUS precisa ser levado a sério pelos nossos governantes. Em todos os momentos, o sistema deverá seguir sendo financiado adequadamente, ampliado conforme necessidade e, principalmente, servir ao povo. Também aprendemos que é importante fortalecer as alternativas público-privadas, a suficiência da oferta e o modelo de cuidados comunitários. Precisamos garantir vigilância, ciência e tecnologia para avançar.

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